SOBRE A VERDADEIRA ROSA+CRUZ

Robert Ambelain - "Le Sacramentaire Du Rose+Croix" - Tradução by Frater Parsifal

O leitor que desejar estudar a história do movimento rosacruciano (o verdadeiro, aquele dos séculos XVII e XVIII, e não certas “reconstituições” americanas modernas) , poderá ler o excelente livro que Sédir consagra a esta questão, intitulado História e Doutrina da Rosa+Cruz, ao qual acrescentamos o trabalho de F. Wittemans, História da Rosa+Cruz, o pequeno livro de Serge Hutin, História da Rosa+Cruz, e nosso estudo Templários e Rosa+Cruz; assim o leitor profano estará o suficientemente informado sobre esta questão.

O programa Rosa+Cruz pode ser resumido assim: a cura dos enfermos; a ajuda anônima aos indivíduos e às sociedades humanas ou Estados, quando sua causa é justa; a ação política visando o estabelecimento de um vasto Estado universal, europeu no início, depois mundial ; a ação religiosa visando o retorno a um cristianismo mais puro, mais próximo de sua fonte, despojado da aparência exotérica habitual; e, por fim e pela ação dos Irmãos da Rosa+Cruz, a reintegração do Homem e da Natureza inteira em seu estado primitivo.

Esse programa foi confiado a organizações menos misteriosas, mais próximas do mundo profano, dentre as quais citaremos as mais conhecidas: o Martinismo e a Maçonaria. Por mais estranha que a nossa afirmação pareça, os dois ramos da Maçonaria – racionalista e espiritualista – colaboram igualmente para a realização do programa geral da Rosa+Cruz, no plano político e sociológico. Ao Martinismo foi confiada uma função particular, mais oculta e esotérica.

Para a realização de seu vasto plano, cobrindo necessariamente vários séculos dos tempos modernos, os Rosa+Cruzes se utilizam do conjunto de saberes ocultos tradicionais: Alquimia e Espagíria, Magia, Teurgia e Astrologia, natural e sobrenatural. Sua doutrina é uma combinação de gnose cristã e de kabala judaica. Eles são, de fato, kabalistas cristãos.

Seu lendário fundador, Christian Rosenkreutz, que teria vivido na Alemanha do século XIII, até hoje escapa de todas as pesquisas e conclusões históricas sérias. Na verdade, trata-se de um hierônimo. O hebreu rôz (rosah) significa “segredos”; rosen significa “príncipe”, e, na mesma língua, korôz significa “arauto”. Keraziel, em hebreu arauto de Deus, é na angelologia judia, o nome do Anjo da Proclamação. Assim, Rosenkreutz seria um nome germânico apenas em aparência; na realidade, trata-se de um título, pela deformação do hebreu rosah korôz, significando, portanto, arauto do segredo, ou arauto secreto, o que qualifica perfeitamente a função dos Rosa+Cruz. Mas que segredo? Este nome designa o próprio Deus nas escrituras esotéricas; seja no Siphra Didzéniutha, nos comentários da tradicional Gemara, do Talmud ou das santas Escrituras, sobretudo do Livro de Daniel (2:19), Deus é Seu próprio segredo... O Rosah Korôz da Rosa+Cruz não é senão o Arauto de Deus, e, sob este título, o veículo do Anjo Keraziel.

Observe-se que Rosen (significando príncipe) dá uma significação muito próxima: Príncipe-Arauto, com Rosen Korôz. Assim, o Príncipe do Real Segredo da Maçonaria (Rito de Heredom e Rito Escocês), fonte de tantas finas zombarias pelos antimaçons, tem relação evidente com o plano rosacruciano primitivo e suas realizações políticas.

Este sacramentário que publicamos pertence a um dos ramos da Rosa+Cruz geral, a assim chamada Rosa+Cruz do Oriente. Tocamos nesta questão em uma obra precedente e nos limitaremos a remeter o leitor a certos capítulos que serão relidos com fruto, versando sobre Elias Artista, A Rosa sobre a Cruz ou o Segredo dos Símbolos, e A Rosa+Cruz, recordando o papel desempenhado pelo rosa+cruz Irineu Filaleto junto a Henrique IV, inspirando-lhe o “grande plano” da derrocada da Casa da Áustria e a criação de um tipo de liga europeia.

Gerard Heym, na revista Initiation et Science (1963, nº 57), citou (pág. 47) a Ordem dos Irmãos Asiáticos, também chamada de Cavaleiros de São João Evangelista, reorganizada em 1750 e depois em 1780, que surgira na Tessalônica. Ela é, de fato, a dos Irmãos da Rosa+Cruz do Oriente.

Papus (o doutor Gerard Encausse) sido filiado a essa Ordem antes de 1914, através de um membro do Supremo Conselho da Ordem Martinista que tinha a conhecera no Cairo. Ninguém mais a possuía, nem mesmo Teder, seu sucessor no Martinismo daquela época.

Convém observar, aliás, que essa ordem de cavalaria esotérica nada tem a ver com a Ásia. Tal palavra é, na verdade, um acrônimo que designa uma qualidade, à guisa de sigla, de abreviação.

Quando o candidato entrava na Ordem, recebia o título de Eques A Sancti Johannis Evangelistae, palavras cujas iniciais, reunidas, formavam a palavra EASIE. O Manto da Ordem era de lã preta, forrado de branco. O preto significava, segundo a Tradição clássica, prudência, sabedoria, constância na adversidade e nos perigos, humildade, conhecimento oculto. Cor do luto, ensinava que o iniciado tinha morrido para o mundo. O branco significava a luz interior, a verdade absoluta, a regeneração no além, a pureza da alma. Sobre o ombro, havia no Manto da Ordem um crisma vermelho, primitivo, citado por São Jerônimo, que se apresenta como um X sobreposto ao I maiúsculo. Sob o Manto, o eques portava um colar e uma joia particular.

Segundo um documento que figura em nossos arquivos privados, emanado daquele que transmitiu esta ordenação a Papus, é à Rosa+Cruz do Oriente que se liga a ordenação particular conferida por Dom Martinez de Pasqually aos seus Réau+Croix, no século XVIII. Paralelamente, esse movimento suscita o método da via interior, difundido por L. C. de Saint-Martin, e repousa na Alquimia material, transposta ao plano espiritual. Nós podemos assinalar duas cidades importantes para os Cavaleiros de São João Evangelista: Veneza na Itália e Marselha na França. Ainda hoje, a cripta de São Vitor e sua célebre Virgem Negra tem papel eminente para aqueles que subsistem da Ordem, e são bem poucas pessoas sem dúvida! Pois a Virgem Negra, de São Vitor bem como de outros locais, é a Padroeira da Ordem.